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Fazer “aquilo que você ama” versus a “ditadura da felicidade” no trabalho

É isso. Ouça a sua voz interior. Não a ignore. E obedeça o que ela estiver lhe dizendo.

É isso. Ouça a sua voz interior. Não a ignore. E obedeça o que ela estiver lhe dizendo.

Muito se tem falado sobre “trabalhar com aquilo que se gosta”, “fazer o que se ama”, “trabalho com propósito”, ter uma “missão” na carreira e na vida. Tanto na vida executiva quanto no empreendimento.

De um lado, isso já virou clichê. Daquelas conversas que a gente já não aguenta mais ouvir. De outro, como sempre acontece, já tem gente se insurgindo contra essa “obrigação de ser feliz”, contra o que seria uma “ditadura da felicidade”.

Gostaria de dizer o seguinte:

1. Carreira é como casamento. Você precisa escolher bem. Trata-se de uma relação de longo prazo. E você precisa escolher com o coração, pela paixão. Mesmo sem saber como fará para pagar o aluguel ou para mobiliar a casa ou para por comida em cima da mesa ou para arcar com a escola dos futuros filhos. Quando você está com a pessoa certa, passa a ver o mundo e as coisas que de outra forma. Suas prioridades mudam. O que você considera “sucesso” também. E, no fim, acredite, tudo dá certo. Em termos práticos, sempre acabamos sobrevivendo. Então, no final das contas, já que chegaremos “lá” de um jeito ou de outro, o que importa mesmo é você ser feliz no processo, é o tanto de alegrias e de sorrisos que você experimenta ao longo do caminho.

O contrário disso também é verdade: quando você está com a pessoa errada, mesmo que tudo dê “certo”, a coisa já deu errado, já começou errada, está irremediavelmente errada. Na carreira, da mesma forma, quanto mais você avançar por uma estrada que não é a sua, mais você se afastará de si mesmo. Nesse cenário – desolador – quanto mais você der “certo”, mais “errada”, ou errática, será a sua vida profissional.

Você projeta para a sua vida amorosa uma relação quente, apaixonada, com tesão, com sexo bom, com cumplicidade, olho no olho, intensidade – ou uma relação morna, baseada em interesses e em conveniência, sem prazer, sem intimidade, marcada pela distância e pela indiferença entre os consortes? Com a vida profissional, na relação entre você e o trabalho, é a mesma coisa. Continue lendo »

Eu não fui feliz, meu filho. Então você está proibido de sê-lo.

Sim, garoto, você é. Mesmo que seu pai e sua mãe achem que não. Crescer significa também enfrentá-los.

Sim, garoto, você é. Mesmo que seu pai e sua mãe achem que não. Crescer significa também enfrentá-los.

Esses dias ouvi um pai ceifando opções de carreira numa conversa que estabelecia com o filho adolescente com o vaticínio: “isso não dá dinheiro”.

Não era bem uma conversa, era mais um monólogo – o menino tentava construir uma frase, expressar um desejo, e o pai descia a marreta paterna, embalada nesse raciocínio dinheirista. Logo ele que não era assim a pessoa mais feliz do mundo no trabalho – não tinha uma carreira, tinha um emprego que lhe rendia algum dinheiro e quase nenhuma felicidade profissional.

É curioso como temos a capacidade de reproduzir como herança imposta aos nossos filhos as coisas que deram menos certo para a gente. Quase como uma sabotagem à geração seguinte – “eu não fui feliz, eu não segui minhas paixões, eu não ouvi meu coração, e tratei de obedecer meus pais, e agora você me deve tudo isso. Não ouse se realizar profissionalmente! Especialmente em alguma coisa que eu não entenda ou que não me dê orgulho”.

Esse mesmo pai, ou essa mesma mãe, segue adiante em seu modo de pensar: “Não ouse se realizar afetivamente num modelo que não seja o matrimônio heterossexual – porque eu não saberia como contar isso para os meus amigos e teria vergonha de você, além de uma sensação insustentável de ter falhado em passar os valores da geração que me precedeu para a geração que me sucederá”. Não importa que esses valores sejam velhos de muitas décadas e não representem mais a vida como ela acontece hoje. “Não ouse ter uma religião que não for a minha (pior do que tudo é não ter crença alguma) ou torcer para um time que não seja o meu ou ignorar qualquer régua fundamental à minha vida – ela deveria também reger a sua também”. Continue lendo »

É preciso ter um propósito – ou a vida fica muito chata

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo - até quando trabalha para os outros

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo – até quando trabalha para os outros

Recebo a seguinte mensagem de uma leitora do Manual, por obra deste artigo que publiquei esses dias:

“Querido Adriano,

Queria muito poder abrir mão desse componente que apesar de não ser essencial, parece: a grana. Pode parecer contraditório mas a angústia, o frio na barriga e o medo do incerto nessa altura do campeonato são maiores do que os sapões engolidos todo santo dia.

Vamos à minha história, que carinhosamente chamo de ‘parece, mas não é’. E desculpe se volto muito ao passado, mas ele explica grande parte das minhas inseguranças no mundo profissional.

Mãe: trabalhou por 35 anos na mesma empresa, onde começou como office-girl e se aposentou como gerente financeira, muito respeitada. Foi a responsável pela provisão em casa. Criou as duas filhas com limitações, mas sempre buscando o melhor. Leia-se: estudamos sempre em escolas particulares, mas não íamos à Disney todo ano como nossas coleguinhas de sala.

Pai: sempre fez de tudo um pouco, de maneira bem instável, é verdade, mas sempre se desdobrando para também dar o melhor às duas filhas. Trabalhou em editoras como representante de vendas, em corretora de seguros, em banco e até arriscou por duas vezes um negócio próprio mas nunca foi para a frente. Minha mãe sempre dizia que ele não nasceu para ter chefe. Meu pai parou de trabalhar antes da minha mãe e ficava em casa conosco.

Isso explica muito minha insegurança no mundo do empreendedorismo. Se tenho uma família a sustentar e um padrão de conforto a manter, preciso de estabilidade, não posso me aventurar.

Me formei em faculdade de primeira linha na minha área (Marketing), fiz pós-graduação, e sempre trabalhei em multinacionais que me deram um belo currículo. Mas além do currículo, essas mesmas empresas me deram experiência e me fizeram enxergar ao longo do caminho que nada vale a pena no mundo corporativo. Não vale a pena se sacrificar, pois no final do ano, sua avaliação de performance será medíocre comparada com o colega que ainda acha que beijar as mãos do chefe vale a pena. Não vale a pena vender mais, quem está ganhando nesse jogo é a pessoa jurídica e os acionistas dela e não você. Não vale a pena ser respeitado, ser referência pois tudo é efêmero nesse mundo. Enfim, poderia tecer uma lista gigantesca de todos os inconvenientes do mundo corporativo. Mas você já fez isso de maneira brilhante no artigo.

 Hoje sou uma gerente, especialista pois não tenho equipe, o que é um dos motivos da minha frustração. Pareço ter um cargo importante, em uma multinacional importante, com um salário bem adequado a essa importância toda e tenho amigos que me consideram uma profissional de moderado sucesso.

Como eu vejo: uma especialista que entende de tudo um pouco na minha área, que só é gerente por que o título do cargo é esse, cujo salário é uma prisão e que está cada vez mais frustrada, faz cada vez menos e cada vez pior as tarefas do dia a dia, empurrando mesmo com a barriga. Faço o que deve ser feito. Nem um passo a mais. Não gosto do que faço e, a bem da verdade, não faço muita coisa pois as verbas são cada vez menores.

Minha prisão:

– Um bom salário: que chega a ser o triplo do salário do meu marido e que sustenta grande parte do nosso padrão de vida e me dá a segurança de que consigo criar bem meu filho

– Um chefe que fica em outro país: o que me dá a tranquilidade de não ter alguém na minha cola, me cobrando o tempo todo e me avaliando a todo minuto

– Flexibilidade: entro a hora que quero, saio a hora que quero, posso trabalhar em casa. Levar e buscar meu filho na escola, ficar com ele em casa quando ele está doente.

Meu dilema:

Por que largar um emprego dos sonhos como esse (é o que sempre escuto) e partir para um negócio próprio? Não seria melhor manter o status quo e garantir um bom futuro para meu filho? Por que largar um emprego em que tenho vantagens que não passam de sonho para outras pessoas?

Tenho proposta para ir para outra empresa. Durante um tempo, a euforia do aprendizado me faria crer que tomei a decisão certa, quando na verdade só estaria mudando de CNPJ e quiçá para uma situação pior, sem as vantagens que tenho hoje. Mudar de lado? Ir para o lado do fornecedor, da agência, da consultoria, seria oportunidade de aprender coisas novas e talvez a euforia durasse mais tempo, mas no fim das contas, só demoraria um pouco mais para desanimar de novo (sem contar as desvantagens da falta de horário, do sacrifício, das mãos a serem beijadas – afinal tudo isso existe do outro lado também.)

Sim, a grana é importante para mim agora, mas não aguento mais a situação. Além disso, não faço ideia do que fazer, de uma alternativa, do que gosto, de algo em que sou muito boa, de algo que as pessoas falem que eu deveria ganhar dinheiro com aquilo.

Incrível como a história influencia nosso destino e nossas decisões. Sou aquela mesma alma do meu pai que quer se livrar do mundo corporativo, aprisionada na segurança e na estabilidade que minha mãe transmitiu serem tão importantes.

E enquanto escrevia esse texto me dei conta de que tenho um tesouro nas mãos! Tempo. Me dei conta de que preciso utilizar essa flexibilidade e tempo livre que tenho e canalizar energias para:

1.          Encontrar o que me faz feliz – o caminho do autoconhecimento, como você muito bem coloca;

2.         Investir nessa felicidade enquanto tenho a segurança e estabilidade que a corporação me oferece, por mais injusto que isso possa parecer com a empresa. Mas, no final das contas, o que é justo no jogo corporativo, não é mesmo?

Obrigada por me encaminhar a essa reflexão. E, mais uma vez, desculpe o tamanho do desabafo. Abs!”

Trata-se, como se vê, da reflexão de uma executiva experiente e bem formada. Uma reflexão que fala com a minha vida e com a sua. E que, portanto, nos permite pensar juntos. Coloco aqui a minha análise. E, como sempre, você está convidado para colocar a sua, OK?

Cara leitora, Continue lendo »

Está com medo de mudar? Leia isso.

Nunca é tarde demais para você se transformar naquilo que sempre sonhou ser.

Nunca é tarde demais para você se transformar naquilo que sempre sonhou ser.

Encontro meu amigo numa festa. Fazia tempo que não nos víamos. Ele me conta do quanto está feliz. De como mudou a sua vida para melhor. Sua aparência está ótima. Você vê na pele e no brilho do olho quando uma pessoa está num momento bom.

Ele tem 40 anos. Trabalhava há 23 anos no setor financeiro de uma grande empresa. Contas a pagar, recebimentos, administração de grana daqui para lá e de lá para cá. Entrou lá como estagiário. E foi crescendo. Ou ficando. Aquele primeiro emprego se tornou uma carreira. E também um grilhão.

Com o tempo, foi percebendo o que queria da vida. Seu coração não estava em finanças. Estudou arte. Obteve um diploma. Mas veio um casamento. Vieram os filhos. E ele fez o que a maioria de nós faria – se amarrou ao que tinha na mão. Um holerite, um plano de saúde, um vale refeição. Para não correr riscos, correu o maior dos riscos – negar o que a sua voz interior estava lhe dizendo. Isolou a vocação que descobrira em si na caixinha dos desejos inoportunos. Continue lendo »

Do que é feita uma carreira bem sucedida?

É muito mais simples do que a gente pensa, se a gente quiser que seja assim.

É muito mais simples do que a gente pensa, se a gente quiser que seja assim.

Boxe é esquiva e jabs. É manter o adversário à distância, gingar na frente dele, e tocá-lo na cabeça e no abdômen – sem deixá-lo tocar em você. Boxe é esgrima, é drible, é ser mais esperto e rápido do que o outro, é entrar e sair do campo de ação do oponente antes que ele consiga reagir. Boxe é isso. Boxe não é nocaute. Boxe não é olho inchado, nariz quebrado, sangue escorrendo. Ainda que nocautes sejam espetaculares e emocionantes, o boxe não depende disso.

Futebol é marcação, posse de bola, passes certos, envolvimento do oponente e, por fim, bola no fundo das redes adversárias. Como dizia Rubens Minelli, futebol é todo mundo defender quando a bola está com o adversário e todo mundo atacar quando a bola está com o time. Futebol é consistência, regularidade, solidariedade, vontade de vencer, disciplina tática, técnica para realizar bem os fundamentos. Futebol não é o drible desconcertante. Futebol não são os gols de bicicleta. Ainda que dribles e golaços sejam obras de arte inesquecíveis, o futebol não depende disso. Continue lendo »

O que lhe faz feliz?

Quem é você? E: quem você quer ser?

Quem é você? E: quem você quer ser?

Esses dias recebi a seguinte mensagem de um nossos bravos ingênuos:

“Não sei se você e os leitores lembram deste post. Pois bem, pouco mais de um ano depois lembrei das suas dicas e resolvi dizer onde estou agora. Mudei de empresa acreditando 100% que iria ter um plano de carreira melhor, condições melhores e tudo mais.
Ledo engano. Mudei de empresa ganhando a mesma coisa, aprendi algumas coisas a mais e até consegui mudar de área. Hoje estou trabalhando com Marketing Online. Porém a empresa deixa (e muito) a desejar.
Alguns exemplos: banheiro sujo, às vezes não tem água nos andares, gaveta e ar condicionado é luxo. Detalhe: é uma empresa multinacional.
Fora briga entre gerentes, perspectiva de crescimento menor que zero e muito mais.
Entrei 2013 focado em procurar emprego.
Meu sonho de trabalhar com automóveis não parou e até hoje está na minha mente. Agora casado, penso: como vou conseguir sustentar a casa com um salário menor, pelo menos no começo?
Desisti de correr atrás do meu sonho pois infelizmente minha vida hoje em dia é pagar contas e ver a vida passar em um emprego sem futuro.
Todo dia me pergunto ao vir para o que chamo de trabalho: a vida é isso?”

Não só lembro do post, como ele é hoje o quinto mais lido entre os mais de 500 já publicados aqui no Manual – já está com mais de 1 500 leituras.

Eu fazia o seguinte debriefing da sua mensagem: Continue lendo »

Para sobreviver na nova economia

Bem vindo ao presente! Um lugar onde os mais brilhantes não querem nem ter um emprego nem abrir uma empresa.

Tem um novo jeito de trabalhar, de produzir, de ganhar dinheiro e de se realizar profissionalmente que está fazendo a curva ali na esquina e vindo direto para cima da gente. É um paradigma que está se firmando por esses dias, no Brasil e no mundo, deixando de ser conceito e utopia para virar realidade e possibilidade concreta. Esse novo paradigma está suplantando o jeito tradicional de conduzir uma carreira. (Ou vai fazê-lo em muito pouco tempo.) Como toda revolução que dá certo, que pega e se alastra, essa também vai acontecendo e ganhando terreno a partir de vários focos de ruptura que acontecem em paralelo, ao mesmo tempo, de modo aparentemente desconexo. Só que todos esses pequenos movimentos, que vem da base para o topo, apontam para o mesmo lado. Essa sincronicidade cresce até que uma hora – estamos começando a viver isso agora – um sentimento coletivo, de movimento, faz os indivíduos perceberem a força e o potencial do que estão fazendo em conjunto. Aí eles já não são mais “indies” nem “esquisitões” – eles se tornam “mainstream”, viram o novo padrão. É quando a mudança sai do gueto, ganha mundo e se torna influente e irreversível.

Ainda não há um nome definitivo para esse novo paradigma. O melhor que eu já ouvi é “economia criativa”. Trata-se de um lugar – e, antes de um “lugar”, um modus operandi – marcado por “empresas líquidas” e por “relações efêmeras”, em que o indivíduo importa, proporcional e relativamente, muito mais do que as instituições às quais se conecta. “Empresas líquidas” são comparativamente menores, mais leves, mais flexíveis, mais ágeis, mais adaptáveis e mais rápidas do que as organizações empresariais tradicionais. São empresas individuais, ou formadas somente por sócios, sem funcionários, ou com pouco funcionários (e muito parceiros e fornecedores) em que os custos fixos são trocados por custos variáveis, em que os processos são mais simples, em que o controle dá espaço à criatividade, em que a cultura é de resultados e de velocidade e de inovação. As “empresas líquidas” não buscam ser grandes – elas querem ser apenas muito boas no que fazem. A estrutura é a mínima possível, não há secretárias, o home office é incentivado, as pessoas trabalham por projetos e não por horário, o faturamento não interessa tanto quanto a margem. E a grande ambição, nas “empresas líquidas”, é viver e trabalhar bem, com felicidade e realização, muito mais do que com a lógica meramente financeira de bater metas e crescer a qualquer custo das empresas tradicionais. Continue lendo »