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Fazer “aquilo que você ama” versus a “ditadura da felicidade” no trabalho

É isso. Ouça a sua voz interior. Não a ignore. E obedeça o que ela estiver lhe dizendo.

É isso. Ouça a sua voz interior. Não a ignore. E obedeça o que ela estiver lhe dizendo.

Muito se tem falado sobre “trabalhar com aquilo que se gosta”, “fazer o que se ama”, “trabalho com propósito”, ter uma “missão” na carreira e na vida. Tanto na vida executiva quanto no empreendimento.

De um lado, isso já virou clichê. Daquelas conversas que a gente já não aguenta mais ouvir. De outro, como sempre acontece, já tem gente se insurgindo contra essa “obrigação de ser feliz”, contra o que seria uma “ditadura da felicidade”.

Gostaria de dizer o seguinte:

1. Carreira é como casamento. Você precisa escolher bem. Trata-se de uma relação de longo prazo. E você precisa escolher com o coração, pela paixão. Mesmo sem saber como fará para pagar o aluguel ou para mobiliar a casa ou para por comida em cima da mesa ou para arcar com a escola dos futuros filhos. Quando você está com a pessoa certa, passa a ver o mundo e as coisas que de outra forma. Suas prioridades mudam. O que você considera “sucesso” também. E, no fim, acredite, tudo dá certo. Em termos práticos, sempre acabamos sobrevivendo. Então, no final das contas, já que chegaremos “lá” de um jeito ou de outro, o que importa mesmo é você ser feliz no processo, é o tanto de alegrias e de sorrisos que você experimenta ao longo do caminho.

O contrário disso também é verdade: quando você está com a pessoa errada, mesmo que tudo dê “certo”, a coisa já deu errado, já começou errada, está irremediavelmente errada. Na carreira, da mesma forma, quanto mais você avançar por uma estrada que não é a sua, mais você se afastará de si mesmo. Nesse cenário – desolador – quanto mais você der “certo”, mais “errada”, ou errática, será a sua vida profissional.

Você projeta para a sua vida amorosa uma relação quente, apaixonada, com tesão, com sexo bom, com cumplicidade, olho no olho, intensidade – ou uma relação morna, baseada em interesses e em conveniência, sem prazer, sem intimidade, marcada pela distância e pela indiferença entre os consortes? Com a vida profissional, na relação entre você e o trabalho, é a mesma coisa. Continue lendo »

O emprego está acabando. Viva!

O emprego, como o conhecemos hoje, está com os dias contados. E quer saber? Essa é uma grande notícia.

O emprego, como o conhecemos hoje, está com os dias contados. E quer saber? Essa é uma grande notícia.

Há um tempo li que em 2030 quase dois terços da força de trabalho nos Estados Unidos serão formados por agentes econômicos autônomos. Ou seja: profissionais independentes, muitas vezes organizados em CNPJs, com status de pessoa jurídica, que irão se conectar a oportunidades a partir de suas competências e especialidades. Ou seja: o futuro do trabalho, a julgar por esse cenário, é se tornar um especialista, ser muito bom numa determinada área, e entregar esse serviço em projetos com começo, meio e fim.

Esse seria um mundo sem empregos. Ou com menos empregos. Ou com um tipo de emprego muito diferente daquilo que conhecemos. O emprego urbano, em corporações, o que temos hoje, é uma concepção da economia industrial. Ele existe, pois, há quase 250 anos, desde que surgiram as primeiras fábricas nas cidades. Ele evoluiu na forma, é claro. Mas, na essência, continua o mesmo: você entrega a uma companhia toda a sua capacidade de trabalho, 8 horas por dia, de segunda a sexta, o que na prática soma bem mais do que as 40 horas semanais protocolares. Seu trabalho é medido por tempo. Você ganha um crachá, um holerite, alguns benefícios – e trabalha com dedicação exclusiva para aquele empregador.

A economia pós-industrial, a revolução digital e o fenômeno do empreendedorismo estão mudando radicalmente esse cenário. Se na geração do meu pai o ideal de carreira era passar num concurso público, ganhar a estabilidade e trabalhar 30 anos no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, e se na minha geração o ideal passou a ser ingressar na iniciativa privada e fazer a carreira em ciclos de 5 a 10 anos em grandes empresas, e se aposentar com 35 de serviços prestados numa trajetória corporativa ascendente, a turma que chega hoje ao mercado não quer nada disso. Continue lendo »

É preciso ter um propósito – ou a vida fica muito chata

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo - até quando trabalha para os outros

Quem tem uma causa está sempre trabalhando para si mesmo – até quando trabalha para os outros

Recebo a seguinte mensagem de uma leitora do Manual, por obra deste artigo que publiquei esses dias:

“Querido Adriano,

Queria muito poder abrir mão desse componente que apesar de não ser essencial, parece: a grana. Pode parecer contraditório mas a angústia, o frio na barriga e o medo do incerto nessa altura do campeonato são maiores do que os sapões engolidos todo santo dia.

Vamos à minha história, que carinhosamente chamo de ‘parece, mas não é’. E desculpe se volto muito ao passado, mas ele explica grande parte das minhas inseguranças no mundo profissional.

Mãe: trabalhou por 35 anos na mesma empresa, onde começou como office-girl e se aposentou como gerente financeira, muito respeitada. Foi a responsável pela provisão em casa. Criou as duas filhas com limitações, mas sempre buscando o melhor. Leia-se: estudamos sempre em escolas particulares, mas não íamos à Disney todo ano como nossas coleguinhas de sala.

Pai: sempre fez de tudo um pouco, de maneira bem instável, é verdade, mas sempre se desdobrando para também dar o melhor às duas filhas. Trabalhou em editoras como representante de vendas, em corretora de seguros, em banco e até arriscou por duas vezes um negócio próprio mas nunca foi para a frente. Minha mãe sempre dizia que ele não nasceu para ter chefe. Meu pai parou de trabalhar antes da minha mãe e ficava em casa conosco.

Isso explica muito minha insegurança no mundo do empreendedorismo. Se tenho uma família a sustentar e um padrão de conforto a manter, preciso de estabilidade, não posso me aventurar.

Me formei em faculdade de primeira linha na minha área (Marketing), fiz pós-graduação, e sempre trabalhei em multinacionais que me deram um belo currículo. Mas além do currículo, essas mesmas empresas me deram experiência e me fizeram enxergar ao longo do caminho que nada vale a pena no mundo corporativo. Não vale a pena se sacrificar, pois no final do ano, sua avaliação de performance será medíocre comparada com o colega que ainda acha que beijar as mãos do chefe vale a pena. Não vale a pena vender mais, quem está ganhando nesse jogo é a pessoa jurídica e os acionistas dela e não você. Não vale a pena ser respeitado, ser referência pois tudo é efêmero nesse mundo. Enfim, poderia tecer uma lista gigantesca de todos os inconvenientes do mundo corporativo. Mas você já fez isso de maneira brilhante no artigo.

 Hoje sou uma gerente, especialista pois não tenho equipe, o que é um dos motivos da minha frustração. Pareço ter um cargo importante, em uma multinacional importante, com um salário bem adequado a essa importância toda e tenho amigos que me consideram uma profissional de moderado sucesso.

Como eu vejo: uma especialista que entende de tudo um pouco na minha área, que só é gerente por que o título do cargo é esse, cujo salário é uma prisão e que está cada vez mais frustrada, faz cada vez menos e cada vez pior as tarefas do dia a dia, empurrando mesmo com a barriga. Faço o que deve ser feito. Nem um passo a mais. Não gosto do que faço e, a bem da verdade, não faço muita coisa pois as verbas são cada vez menores.

Minha prisão:

– Um bom salário: que chega a ser o triplo do salário do meu marido e que sustenta grande parte do nosso padrão de vida e me dá a segurança de que consigo criar bem meu filho

– Um chefe que fica em outro país: o que me dá a tranquilidade de não ter alguém na minha cola, me cobrando o tempo todo e me avaliando a todo minuto

– Flexibilidade: entro a hora que quero, saio a hora que quero, posso trabalhar em casa. Levar e buscar meu filho na escola, ficar com ele em casa quando ele está doente.

Meu dilema:

Por que largar um emprego dos sonhos como esse (é o que sempre escuto) e partir para um negócio próprio? Não seria melhor manter o status quo e garantir um bom futuro para meu filho? Por que largar um emprego em que tenho vantagens que não passam de sonho para outras pessoas?

Tenho proposta para ir para outra empresa. Durante um tempo, a euforia do aprendizado me faria crer que tomei a decisão certa, quando na verdade só estaria mudando de CNPJ e quiçá para uma situação pior, sem as vantagens que tenho hoje. Mudar de lado? Ir para o lado do fornecedor, da agência, da consultoria, seria oportunidade de aprender coisas novas e talvez a euforia durasse mais tempo, mas no fim das contas, só demoraria um pouco mais para desanimar de novo (sem contar as desvantagens da falta de horário, do sacrifício, das mãos a serem beijadas – afinal tudo isso existe do outro lado também.)

Sim, a grana é importante para mim agora, mas não aguento mais a situação. Além disso, não faço ideia do que fazer, de uma alternativa, do que gosto, de algo em que sou muito boa, de algo que as pessoas falem que eu deveria ganhar dinheiro com aquilo.

Incrível como a história influencia nosso destino e nossas decisões. Sou aquela mesma alma do meu pai que quer se livrar do mundo corporativo, aprisionada na segurança e na estabilidade que minha mãe transmitiu serem tão importantes.

E enquanto escrevia esse texto me dei conta de que tenho um tesouro nas mãos! Tempo. Me dei conta de que preciso utilizar essa flexibilidade e tempo livre que tenho e canalizar energias para:

1.          Encontrar o que me faz feliz – o caminho do autoconhecimento, como você muito bem coloca;

2.         Investir nessa felicidade enquanto tenho a segurança e estabilidade que a corporação me oferece, por mais injusto que isso possa parecer com a empresa. Mas, no final das contas, o que é justo no jogo corporativo, não é mesmo?

Obrigada por me encaminhar a essa reflexão. E, mais uma vez, desculpe o tamanho do desabafo. Abs!”

Trata-se, como se vê, da reflexão de uma executiva experiente e bem formada. Uma reflexão que fala com a minha vida e com a sua. E que, portanto, nos permite pensar juntos. Coloco aqui a minha análise. E, como sempre, você está convidado para colocar a sua, OK?

Cara leitora, Continue lendo »

Do que é feita uma carreira bem sucedida?

É muito mais simples do que a gente pensa, se a gente quiser que seja assim.

É muito mais simples do que a gente pensa, se a gente quiser que seja assim.

Boxe é esquiva e jabs. É manter o adversário à distância, gingar na frente dele, e tocá-lo na cabeça e no abdômen – sem deixá-lo tocar em você. Boxe é esgrima, é drible, é ser mais esperto e rápido do que o outro, é entrar e sair do campo de ação do oponente antes que ele consiga reagir. Boxe é isso. Boxe não é nocaute. Boxe não é olho inchado, nariz quebrado, sangue escorrendo. Ainda que nocautes sejam espetaculares e emocionantes, o boxe não depende disso.

Futebol é marcação, posse de bola, passes certos, envolvimento do oponente e, por fim, bola no fundo das redes adversárias. Como dizia Rubens Minelli, futebol é todo mundo defender quando a bola está com o adversário e todo mundo atacar quando a bola está com o time. Futebol é consistência, regularidade, solidariedade, vontade de vencer, disciplina tática, técnica para realizar bem os fundamentos. Futebol não é o drible desconcertante. Futebol não são os gols de bicicleta. Ainda que dribles e golaços sejam obras de arte inesquecíveis, o futebol não depende disso. Continue lendo »