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Manifesto contra os desodorantes íntimos

 

Não alterem quimicamente a mais linda e saborosa fruta já produzida pela natureza.

Não alterem quimicamente a mais linda e saborosa fruta já produzida pela natureza.

“Você sabia que existem mais glândulas de suor na área íntima do que em qualquer outra parte do corpo?
Às vezes o suor causa odores e agora você pode evitar que isso aconteça.
[Nome do produto] é o primeiro … que encapsula os agentes causadores de odor antes que ele se desenvolva, para que você fique fresca por mais tempo.”

Esse texto está na embalagem de um desodorante íntimo. Desses que as mulheres se sentem na obrigação de usar. Eis o que gostaria de dizer:

1. Meninas: se fosse ruim não tinha tanta gente correndo atrás. Não é contraditório que a intimidade feminina seja ao mesmo tempo a coisa mais perseguida, valorizada, glamurizada, fetichizada da espécie humana – e ao mesmo tempo um negócio do qual as mulheres têm que sentir vergonha, e esconder por pudor, e tratar como uma desvantagem invencível em relação ao homens? Parece um pouco que essa conversa de que mulheres cheiram mal é um recalque masculino. Meninas: não entrem nessa. Orgulho da vulva, caramba! Continue lendo »

A patética confraria dos cuecas sujas

 

Eis o que as campanhas publicitárias de cerveja não cansam de nos dizer: todo bebedor de cerveja é um idiota.

Eis o que a maioria das campanhas publicitárias de cerveja não cansa de nos dizer: todo bebedor de cerveja é um idiota.

Não é preciso olhar com olhos feministas para enxergar nesta campanha Verão, da cerveja Itaipava, uma colagem de equívocos.

Verão – um trocadilho do nome da estação com o aumentativo de Vera – é uma mulher gostosíssima. (O casting, nesse sentido, é perfeito. Parabéns aos envolvidos.) Ela trabalha seminua num bar, como garçonete, e é basicamente constrangida o tempo todo por todos os presentes no recinto, do seu colega (ou patrão?) atrás do balcão aos comensais nas mesas (todos homens).

Trata-se de uma situação de curra moral coletiva, de solidariedade entre homens na misoginia, na humilhação ou na alienação de mulheres – a falocracia operando seu jugo. A cena emula um puteiro – o ambiente arquetípico que a cerveja escolheu para contar a sua história. A mulher objeto, reduzida às suas curvas. A nudez feminina sendo vendida de um homem (o proprietário) para outro homem (o cliente). A mulher como uma escrava sexual, como um produto negociado num mundo de cáftens. A transformação da mulher bonita, que nos provoca, em uma prostituta – como se o único valor que ela tivesse a oferecer fosse um sorriso malicioso (dado a qualquer um que possa pagar), um par de peitos e outro de coxas, uma bunda se insinuando para fora da microssaia.

O filme é duplamente insidioso ao não retratar nada disso como uma expressão da sexualidade da moça, como um protagonismo dela em relação à sua própria libido – mas, ao contrário, colocando toda a carga de erotismo da cena a serviço dos homens, como uma oferenda ao falo. (O coro dos caras no bar, “Vai, Verão…”, quando ela vira de costas, e “Vem, Verão…”, quando ela volta de frente, sublinha essa ideia da moça como uma marionete controlada pelo desejo masculino.)

E o filme é triplamente insidioso ao retratar Verão como uma mulher que gosta disso, como uma fêmea que adora se ver nessa posição de ser exibida aos clientes como uma mercadoria – ela chega a se vangloriar disso ao final do comercial. Continue lendo »

Por que as mulheres não gostam de homens sem dinheiro

O conluio entre os homens dispostos a comprar e as mulheres prontinhas para vender ainda viceja entre nós

O conluio entre os homens dispostos a comprar e as mulheres prontinhas para vender ainda viceja entre nós

Tem um bocado de coisas na relação entre homens e mulheres que estão mal paradas.

Na segunda metade do século 20 esses papeis foram chacoalhados. O mundo dos meu avós, que nasceram no Entre Guerras, não era muito diferente do mundo de seus antepassados, mesmo os mais longínquos, em qualquer lugar do planeta. Evoluíam as roupas, a indústria, o entretenimento, a ciência ao redor. Mas os papeis, até ali, se mantinham mais ou menos os mesmos desde quando os núcleos familiares deixaram de ser regidos pelo matriarcado tribal para serem regulados pelo patriarcalismo – um sistema que permitia uma passagem mais conveniente da riqueza acumulada pelos homens – herança – de geração a geração. (Aprendi isso com Engels!)

O homem trabalhava fora, provia, era o chefe da família, tinha reconhecimento social pelo seu trabalho. A mulher trabalhava em casa, e obtinha reconhecimento social pelo modo como cuidava do marido e da família, da comida, das roupas e do lar. O homem era um guerreiro nômade – espelhando seus espermatozoides, loucos para pular a cerca. A mulher era uma rainha sedentária – e era obrigada ao recato que se exigia de sua própria libido.

Aí vieram os anos 60, a pílula, a revolução nos costumes, as reinvindicações feministas, a queimação de sutiãs, a ralação de esfíncteres os mais variados, e o mundo jamais seria o mesmo. A geração dos meus pais foi a da precursora disso. Com os anos 70 vieram alguns exageros. Nos anos 80, houve um certo retrocesso, especialmente com o advento de flagelos como a Aids, o mullet e o glitter rock. A geração Y reequilibrou as coisas e voltou a curtir a vida com mais leveza nos anos 90. E de 2000 para cá, já que trocamos de século e de milênio, parece que estamos vivendo a pós modernidade das relações entre os gêneros.

No entanto, restam muitas dúvidas. Se as mulheres já são maioria no mercado de trabalho, faz sentido o homem ainda pagar a conta do restaurante sozinho? Dividir o repasto tudo bem mas o motel jamais? Por quê? Só o homem se diverte lá dentro? (E mesmo que isso fosse verdade, financiar sozinho a sessão de sexo não aludiria de certa forma a uma compra unilateral daquele momento de prazer, e, portanto, à prostituição do outro?) Ainda faz sentido se falar em chefe de família, se referindo sempre ao homem, quando as mulheres participam ativamente do orçamento familiar e muitas vezes sustentam a casa? Nessa perspectiva, abrir a porta para a companheira seria ainda um sinal de cavalheirismo ou isso já está prestes a se tornar um gesto de subserviência a quem paga as contas? Enfim, as coisas andam confusas. Continue lendo »