O triunfo do arroz com feijão

Caro inovador: você terá muitas dificuldades em sobreviver se quiser fazer só coisas especiais.

Caro inovador: você terá muitas dificuldades em sobreviver se quiser fazer só coisas especiais.

Toda empresa nasce olhando para o feijão com arroz servido a rodo no mercado com algum desdém e propondo um fundo de alcachofra ou aspargos para tornar o prato mais saboroso.

Ou seja: toda empresa chega ao mercado com algum diferencial. Ou ela faz o que já havia de modo mais rápido, mais barato, mais conveniente. Ou ela traz algo que ainda não havia no cardápio de opções aos consumidores.

Se ela não oferecer nada disso, se ela apenas se dispuser a fazer mais do mesmo, ela não entra no mercado. Ou entra e sai rapidinho. Porque não se diferencia, não cria marca, não se distingue pela geração de um valor que só ela consiga entregar.

O paradoxo é que, se para se firmar no mercado, a empresa precisa apresentar algum tipo de inovação, seja ela incremental (melhoria do que já existe) ou disruptiva (nova proposta, até ali inexistente), ela também só conseguirá crescer se aprender, rapidinho, a entregar o feijão com arroz bem feito, com regularidade e bom preço.

Eis o duro recado para as startups inovadoras: é preciso saber fazer também o bom, bonito e barato. É preciso aprender a fazer o que as pessoas querem comprar e não apenas o que você quer vender. É preciso atender as demandas existentes – por mais caretas que elas pareçam perto da sua genialidade de empreendedor. Disso virá 80% do seu faturamento. Talvez mais. Focar a totalidade da sua energia realizadora na criação de novas demandas pode ser arriscado demais. Invente o futuro – mas não vire as costas ao presente, ao que está acontecendo ao seu redor. (A menos, é claro, que você seja Steve Jobs.)

Em suma: você terá muitas dificuldades em sobreviver se quiser fazer só coisas especiais. Sobreviver, assim, no infinitivo, já é difícil. Mas é ainda mais complicado para quem decidir viver só de fundos de alcachofra e aspargos.

Esses dias ouvi uma ideia que resume bem esse ponto que busco desenvolver aqui: pare de tentar ser tão genial e preocupe-se um pouco mais em entregar bem aquilo que lhe foi encomendado. Ouça as pessoas. Trabalhe para elas. Atenda-as bem. Resolva problemas reais em suas vidas. Em determinados momentos, em determinados mercados, em determinadas empresas, a grande disrupção é fazer o simples – e fazer o simples bem feito.

Enfim: nem sempre se trata de reinventar as entregas ou de redesenhar a roda e a colher. Às vezes basta entregar bem aquilo que está faltando e o que está sendo pedido. Não raro essas necessidades desatendidas são coisas óbvias, que se tornam invisíveis aos nossos olhos porque estamos sempre procurando o passe de efeito, o lançamento de 40 metros, e aí deixamos de ver o companheiro que se desloca livre ao nosso lado, pedindo bola. Às vezes a coisa certa a fazer é a coisa óbvia. Às vezes a jogada mais efetiva é a jogada mais simples.

Eis a mais poderosa das inovações – excelência na entrega, a produção de um valor, de uma solução que gera no cliente um sentimento de incredulidade e de gratidão eterna.

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