Manifesto contra os desodorantes íntimos

 

Não alterem quimicamente a mais linda e saborosa fruta já produzida pela natureza.

Não alterem quimicamente a mais linda e saborosa fruta já produzida pela natureza.

“Você sabia que existem mais glândulas de suor na área íntima do que em qualquer outra parte do corpo?
Às vezes o suor causa odores e agora você pode evitar que isso aconteça.
[Nome do produto] é o primeiro … que encapsula os agentes causadores de odor antes que ele se desenvolva, para que você fique fresca por mais tempo.”

Esse texto está na embalagem de um desodorante íntimo. Desses que as mulheres se sentem na obrigação de usar. Eis o que gostaria de dizer:

1. Meninas: se fosse ruim não tinha tanta gente correndo atrás. Não é contraditório que a intimidade feminina seja ao mesmo tempo a coisa mais perseguida, valorizada, glamurizada, fetichizada da espécie humana – e ao mesmo tempo um negócio do qual as mulheres têm que sentir vergonha, e esconder por pudor, e tratar como uma desvantagem invencível em relação ao homens? Parece um pouco que essa conversa de que mulheres cheiram mal é um recalque masculino. Meninas: não entrem nessa. Orgulho da vulva, caramba!

2. Eu sou homem e heterossexual. Eu gosto de mulher. Eu gosto de vagina, de vulva, de pequenos e de grandes lábios, de clitóris. Enfim: eu gosto de buceta. E não estou sozinho nessa. Milhões de homens e de mulheres também curtem, e muito, o que só uma buceta pode oferecer. Incluindo aí todas as suas características – cheiro, gosto, temperatura, textura, aparência, licores, humores. Prestem atenção ao que vos digo, meninas, eu e a torcida do Flamengo, em vez de ficarem dando tanta bola à gente que não gosta, ou que tem medo, ou nutre inveja, ou que sente nojinho do que vocês têm entre as pernas. Ou então gente que quer ganhar dinheiro explorando um receio e um constrangimento que vocês não deveriam ter. Deem uma banana aos antis (vai ver que no fundo é disso que eles gostam) e ouçam mais os apreciadores.

3. Eu quero que mulher cheire como mulher! Assim como quero que pêssego cheire como pêssego e que queijo camembert cheire como queijo camembert e que manjubinhas fritas cheirem como manjubinhas fritas. Não quero uma buceta transgênica, cheirando a lavanda ou alfazema ou sândalo ou aloe vera. Nem quero uma buceta anódina, insípida, que não cheire a nada nem saiba a coisa nenhuma. Viva as bucetas orgânicas! Não alterem quimicamente a mais linda e saborosa fruta já produzida pela natureza. Respeitem os feromônios!

4. Por que não há desodorante íntimo para homem? Para paus e sacos e virilhas masculinas basta um bom banho por dia e cuidados normais de asseio ao ir ao banheiro, com trocas regulares de roupa, para que o homem fique tranquilo em relação a sua higiene íntima. Já a mulher precisa se sentir “segura” e “protegida” – esses são termos bem usados pela publicidade desse tipo de produto. Por quê? O subtexto aí é que as mulheres são naturalmente mais sujas do que nós. O que é um absurdo. Uma mulher saudável, com seu pH equilibrado, com sua flora vaginal em dia, que tome um bom banho por dia e que mantenha cuidados normais de asseio ao ir ao banheiro, com trocas regulares de roupa, deveria se sentir tão tranquila, “segura” ou “protegida” do que qualquer homem em iguais condições. O resto é sexismo. O resto é machismo. O resto é misoginia.

5. Tem uma indústria inteira que se aproveita dessas inverdades, ou dessas opiniões enviesadas, que, de tão repetidas, viram mitos. Ou pior, tabus. Ou pior: verdades tortas incontestáveis, dogmas de gênero destinados a manter as mulheres sob controle – no andar de baixo, no quarto dos fundos. Releia com atenção a citação com que abro esse texto. Repare nessa conversinha mole de marketing, estampada em embalagens, bulas, site e comerciais de desodorantes íntimos, sabonetes íntimos, moderadores íntimos. Ficam usando de eufemismos e de tons artificialmente amigáveis e falsamente cúmplices para, no fundo, reforçar os fantasmas e os grilhões que atormentam as mulheres desde que o patriarcado se instalou em nossa espécie, por conta das guerras entre os clãs, suplantando a hegemonia do matriarcado, logo que nos tornamos sedentários e começamos a organizar exércitos para defender e conquistar territórios, ainda no Neolítico, entre 10 000 A.C. e 3 000 a.C. Até ali, quando os homens assumiram o comando, não havia “inveja do pênis”, mas, sim, “inveja do útero”. A força de gerar a vida, uma arte feminina, era mais importante do que a força de tirar a vida, uma arte masculina. Aquelas palavras, escolhidas a dedo, de modo a dar uma roupagem moderna a uma ideia obsoleta, e uma roupagem científica a uma visão que é absolutamente cultural, compõem uma desfaçatez que me irrita demais. Especialmente porque a maioria das diretoras de marketing desses produtos são mulheres!

6. E não me venham dizer que vender o “frescor” e a “inibição de odores” íntimos para as mulheres é uma coisa tão inocente e corriqueira quanto os chicletes e cremes dentais oferecerem “refrescância” ao hálito. Só poderíamos igualar as duas coisas se houvesse sabonetes e desodorantes e moderadores prometendo “frescor” e “inibição de odores” íntimos para os homens também. Afinal, os chicletes e cremes dentais conversam tanto com homens e mulheres, certo? E partem do pressuposto de que as bactérias da boca podem, às vezes, causar embaraços a qualquer ser humano – coisa que um chiclete ou um creme dental poderiam ajudar a resolver. Levando nossa conversa para o lugar onde estávamos: por que só as mulheres deveriam se preocupar com as bactérias sob as calcinhas? Não há bactérias debaixo das cuecas também? Homens são criaturas naturalmente limpas? Como assim? Desde quando? É como se tivéssemos chicletes e cremes dentais dizendo que só mulheres têm mau hálito, e que homens não precisam se preocupar com isso porque seu bafo está sempre fresco, imune aos “agentes que causam odores”. Ou então que, para os homens, basta manter uma boa escovação e o uso regular do fio dental para ficarem “seguros”, “protegidos” e “confiantes” em relação a isso – enquanto que as mulheres, não. Porque sua natureza é torpe. Uma fonte constante de vergonha e humilhação. Isso é opressão. E baboseira. Chega.

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1 Comentários.

  1. Obrigada por essa postagem!!

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