A vergonha de ser pobre – e o constrangimento de ter alguma coisa

Tal qual o personagem de Eric Stoltz, eu tinha vergonha da casa em que morava.

Tal qual o personagem de Eric Stoltz, eu tinha vergonha da casa em que morava.

Moro num apartamento bacana, num bairro legal. Nunca pensei em morar num lugar assim. No começo da vida adulta, olhava para o conforto de algumas famílias, para o aconchego imponente de algumas residências, e tinha a certeza de que jamais teria condições de construir algo parecido para mim. Não enxergava ponte entre o meu presente, naquela época, e um sonho desse porte. Então nem sonhava.

Minhas primeiras lembranças são de morar num BNH com minha família. Meus pais estavam na batalha. Anos antes, tinham morado em quarto de pensão. Então sou daquelas pessoas que já fingiram não morar em sua própria casa, por vergonha. Quando ganhava uma carona, com o pai ou a mãe de um colega, nas festinhas pré adolescentes, eu saltava antes. Ou depois. Fingia entrar num prédio que não era o meu. Depois que o carro ia embora, eu tomava o rumo da minha casa de verdade. Às vezes pulando uns muros, sem tirar a cara do escuro.

O embaraço persistiu até a idade adulta. Nós já tínhamos nos mudado para a cidade grande. O pessoal da faculdade uma vez passou para me pegar para um fim de semana no sítio de alguém. Eu tinha uns 20 anos. O nosso prédio acanhado me constrangia. Morava na sala do apartamento de quarto e sala da minha mãe. Meu pai, por essa época, dormia em seu escritório. Ou quase isso. Anos duros. Não havia muito a quem recorrer. Há situações na vida em que você só tem a alternativa de ir adiante, na velocidade que der, controlando a angústia, sem desistir.

Uma vez, por essa época, voltei para casa e todos os meus amigos estavam lá. Na sala daquele conjugado que eu habitava. Descobriam meu quarto improvisado. Desnudavam minha intimidade obscena. Tinham sido convidados contra a minha vontade. Estavam apinhados naquele espaço exíguo, sobre os móveis simples, sentando e pisando onde eu dormia. Quanto mais eles tentavam ser gentis, mais eu me sentia invadido, devassado, agredido com sua presença.

(Um amigo querido que me reencontrou muitos anos depois, e que tinha sido confrontado com a minha indignidade naquela tarde, se emocionou ao lembrar daquelas condições e de como a minha vida tinha mudado. Amigo bom é assim: chora de felicidade pelas conquistas da gente. Por solidariedade, por amor, por empatia, por compaixão.)

Tenho hoje, na garagem, o melhor carro que já dirigi na vida. Um carro que é melhor, como veículo, do que sou como motorista. Um carro que eu, no mais das vezes, ainda acho que não mereço e que vejo como uma pequena extravagância que minha mulher me estimulou a empreender. Mas já andei muito a pé. Só aprendi a dirigir e tive meu primeiro carro aos 27 anos. Ia e voltava a pé da escola, na infância. E para a balada e o cinema, na adolescência. Depois andei muito de ônibus, com passagem contada, na época da universidade.

E, claro, já tive vergonha dos carros velhos que minha família teve, nos momentos em que tivemos alguma coisa na garagem. Um Corcel vermelho com mais de 20 anos de uso (nunca houve um carro tão cheiroso e bem cuidado, viu, mãe?), uma Brasília ovo com 15, um Chevette oliva com 10 (onde em tantas tardes fizemos passeios, com o vidro aberto e a FM tocando, que eu jamais esquecerei, viu, pai?). Assim como senti vergonha nos períodos em que não tivemos carro.

Hoje moro bem. Mas não estou em paz com o lugar onde moro – trato meu endereço com reserva e parcimônia. A tranquilidade íntima que tenho em relação à minha casa se transforma em intranquilidade quando o assunto ameaça ganhar alguma exposição. É um assunto privado sobre o qual eu busco guardar a maior discrição possível. Minha reação é sempre produzir pouca visibilidade sobre isso. Trata-se de um conforto particular que, com frequência, acarreta um constrangimento público. É como se eu continuasse negando o lugar onde moro, fingindo que não é ali que vivo, por constrangimento – só que agora com sinal invertido.

Hoje dirijo um bom carro. Que as pessoas identificam com luxo – ele aparenta ser bem mais caro do que realmente custou. Tê-lo cria mais ideias equivocadas do que corretas a meu respeito. Tê-lo me causa algum embaraço quando chego em determinados lugares. Quase tanto quanto aquele Corcel e aquela Brasília e aquele Chevette de outras eras – só que na ponta oposta da régua.

É curioso como por aqui a gente sofre por não ter, por estar abaixo da média, por ser pobre. E sofre também por ter – num lugar em que tantos não tem. Há constrangimentos na escassez – como se você fosse culpado por não possuir. E também na fartura – como se você fosse culpado pelas conquistas que fez na vida. Acho que a condição de pobretão me expôs e me machucou em alguns momentos. Assim como acho que hoje a condição de remediados, talvez abastados, expõe meus filhos. Oxalá isso nunca os machuque.

Vivemos num lugar onde não ter nada é garantia de discriminação e de desprezo. E em que ter conseguido juntar alguma coisa é garantia de ser achacado, de ser odiado, de gerar desconfiança e inveja, mal estar alheio e cobiça. Desde o assalto à mão armada na janela do carro, no semáforo, até o empréstimo em família que jamais será saldado. Desde o manobrista que recebe seu carro com reverência farpada até o colega que um dia você convidou para um queijos e vinhos em casa e que nunca mais lhe olhou do mesmo jeito.

Eis a estranha história de um cara que, não importa o que faça, tenha feito ou venha a fazer, vai viver a vida inteira constrangido pelo lugar onde mora e pelo modo como se locomove.

Deixe um Comentário

22 Comentários.

  1. Texto delicioso e cativante, Adriano. Estou conhecendo (meio atrasada) seus posts. Foi ótimo ter começado por esse.

  2. Veja a ironia, Adriano, pois desde sempre achei muito legal, e muito “cool”, morar nos arredores da Duque, como você morava: endereço em Porto Alegre que tem a ‘rough edge’ do Partenon ou do IAPI, mas ainda com aquelas velhas casas açorianas, tão acolhedoras. Uma realidade distante do “aconchego imponente” das residências da classe média alta porto-alegrense, é certo. Mas que era um baita endereço, isso era!

  3. Perceptions and misperceptions, Bau. Bom título para um próximo filme da Sofia Coppola! Bj.

  4. Identificações nisso também, mestre. Pelos mesmos motivos, mas hoje já na descendente da gangorra na qual estive mais alto. Coisas da vida.
    Subirei novamente, para provavelmente cair, mas jamais me sentirei dono da posição (pelo menos material) que ocupo. Pelo menos procuro não passar os traumas para os filhos….

  5. Adriano,
    Como sempre, adorei o texto, me identifiquei muito. A vida é gangorra mesmo. Não dá para se apegar muito à posição atual. Obrigada por compartilhar seus pensamentos conosco. Para mim, pelo menos, acrescenta muito.
    Abraço.

  6. adriano,

    Também fui o mais pobre da minha turma na minha adolescência.
    E como a vida eh uma gangorra e devido a minha eterna gratidao aos amigos que me sustentaram nos tempos de penuria, vivo dando carona e tentando retribuir o tanto que eles fizeram por mim.

    A minha vida nao foi de 8 a 80 como a sua(ainda hehe), mas digamos q senti vergonha por morar nos fundos da casa da minha avó num puxadinho, por ter uma brasilia amarela q nunca saia da garagem por medo da minha mae de dirigi-la, dentr eoutras coisas….mas isso td me fez ser mais forte e batalhador.

    Mas assim como vc, tanto em uma ponta como em outra, sempre ficou uma sensação agridoce…ora por me ver em tempos dificeis mas mto bem amparado pelos parceiros de jornada, ora por estar em situação um pouco melhor mas sentido por outros nao estarem assim.

    Abs

    Andréas

  7. Muito bacana o texto. É realmente irônico: ser pobre ou ter mais que a maioria são coisas delicadas aqui no Brasil.

    E quem diria: se tu já morou na Duque, tu também é porto-alegrense como eu? Foi o que eu entendi pelo comentário do Álvaro que, por acaso, fez um trabalho comigo, uma vez, há muuuuitos anos atrás lá em Porto Alegre (moro há 1 ano em SP). Era o perfil de um escritório de advocacia, eu fiz o design e ele escreveu os textos.

    Abraços aos dois.

  8. Adriano,exatamente minha história!! sempre evitei que meus amigos soubesse onde morei e sofria por isso. Hoje seria irrelevante o que eles pensassem ao meu respeito depois da descoberta.Sim comprei seu livro HOMEM SEM NOME espero ser tão empolgante quanto seus textos.Abraço!

  9. Moa, muito obrigado por mergulhar no Homem sem Nome. Me conte depois, de modo 100% honesto, o que achou. Grande abraço!

  10. Adriano, farei isso! estou esperando chegar.Poderia esperar o mesmo de você em relação a leitura da Bíblia?Acho que seus leitores adorariam saber.Seus textos são viciantes! muito bons.Abraço!

  11. Olá, Adriano!

    O meu nome é Felipe e tenho 15 anos.

    Cheguei à este site, neste post, após “jogar” sobre a pobreza no Google. Não sei qual é o intuito desta sua página. Aliás, se puder me dizer, agradeço.

    Bom, não sei se essa história é verifica (deve ser a sua, né?), mas com certeza é um acontecimento frequente na vida de muitas pessoas.

    Moro em Pouso Alegre, uma cidade não muito popular de Minas Gerais.
    Não sei definir ao certo cada classe social (pobre, média, alta).
    Recentemente eu e a minha família passamos por um período difícil (dinheiro), porém agora estamos nos estabilizando aos poucos. Na época em que a minha mãe e o meu pai estavam juntos, não tivemos problemas financeiros. Acabaram se separando por causa de brigas. O meu padastro trabalha e a minha mãe recebe auxílios por motivos que prefiro não citar, mas nem sempre conseguem controlar a grana. Desde que comecei a gostar de uma banda, o meu sonho é ser um cantor famoso e assim acho que a minha vida melhoraria muito. Desejo de adolescente? Não sei, só penso que se conquistasse isso, não me sentiria nem um pouco incomodado.

    Desculpe se falei demais.
    A sua história (ou não (?)) é bastante reflexiva.
    Abraço!

    • Hey, Felipe. Tudo bem? Seja bem vindo ao Manual. Tudo que eu publico aqui é verídico – ou pelo menos é a minha verdade. Boa sorte com a sua banda! Considere também escrever – você se expressa muito bem por escrito para a sua idade. Para tocar, é preciso ouvir muito. Para escrever, ler muito. Você está iniciando uma fase de formação, que vai durar uns 10 anos. Consuma tudo que lhe interessar em termos culturais. Tente, experimente, amplie os seus horizontes, teste suas opiniões. Quanto menos convicções você tiver agora, melhor. Mente aberta! Grande abraço!

  12. Ilisama waldovski

    Sem palavras… amei!!!

  13. Agora fiquei curioso. Qual o seu carro ?

    Adorei o texto, bastante lúcido e fatídico.
    Infelizmente nós sentimentos vergonha de não
    possuir, e depois de possuir. É complicado,
    mas acredito particularmente, que no seu caso,
    após ter conquistado tudo; imóveis, automóveis,
    etc e etc, jamais sentiria vergonha. Ainda mais, por ser tão difícil de conquistar qualquer coisa no Brasil.

  14. Adriano, que lindo texto! Muito cativante ainda mais por que me identifico muito com ele. Tenho 18 anos, creio que é uma das piores fases para sofrer com isso. Tento elimina-la, mas a convivência com pessoas que desfrutam de uma boa vida me deixa intimidada. É bom saber que existem pessoas que pensam como eu, ler isso me deixa emocionada. Obrigada! Ao mesmo tempo me sinto inútil quando pareço “melhor que alguém”. Não gostaria de esbanjar, mas viver num lugar em que eu possa chamar de lar.

  15. Obrigado por compartilhar, me identifiquei bastante.

Deixe um Comentário


NOTA - Você pode usar estesHTML tags and attributes:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>