O inferno são os outros

Os problemas advêm sempre deles - os outros. Mas quem consegue viver sem os demais?

Essa é uma verdade. E é também uma frase imortal de Sartre, que já virou até música dos Detonautas (!). O problema é mesmo sempre lidar com os outros. Nossos problemas derivam sempre deles. Das expectativas, cobranças, discordâncias, sinceridades ou falsidades, quedas de braço, disputas, provocações (reais ou imaginárias) que advém do nosso relacionamento com esses caras – os outros. Lidar com gente é infernal. Só que não se vive sem as pessoas. Somos seres gregários. Existimos em sociedade, não vivemos no vácuo nem sobreviveríamos apartados num buraco hermético. Então temos que aprender a lidar com isso. Com os demais, esse inferno. E quem sabe até achar um jeito de aprender a gostar disso. Deles. Minimamente, que seja.

Boa parte da fantasia das pessoas estressadas que conheço envolve uma ilusão de isolamento, um afastamento de suas rotinas. E qual é a pior parte de suas rotinas? Lidar com gente. Estamos sempre fugindo de ter que encarar chefes, subordinados, colegas, professores, síndicos, porteiros, clientes, fornecedores, patrões. Fugimos como podemos de gerenciar nosso dia a dia com a mulher chata, com o marido imperfeito, com os filhos problemáticos, com os parentes ofídicos. (Embora não consigamos passar um dia sequer longe do trabalho “massacrante” ou da mulher “chata”.) Depender de alguém é um perrengue. Ter alguém dependendo de você também. Correr atrás de alguém é duro. Ter alguém lhe perseguindo também. Sofrer uma decepção é complicado. Mais ainda é decepcionar quem espera algum coisa de você. Ter muitas relações demanda um bocado de energia e maturidade emocional. Não ter relações também é um oco que cala fundo. É uma angústia só estar devendo alguma coisa para alguém. E ter que cobrar gente que nos está nos devendo também. Toda essa ansiedade dá vertigem, falta de ar, síndrome do pânico em muita gente. Por isso o sujeito logo se imagina numa aposentaria precoce, sem esses ruídos todos. Como se pudesse escapar a essa teia de demandas e periclitâncias e, levíssimo, desobrigado de lidar com os outros, flanar tranquilo pela vida como uma pluma. Esse escapismo leva o sujeito a se projetar numa pousada na Bahia – um clichê dos anos 90. (Não seria preciso lidar com funcionários, clientes, fornecedores e fiscais por lá também?) Ou escondido num sítio no meio do mato. Ou desterrado num bairro afastado duma cidade insuspeita de um país distante onde ninguém possa lhe achar. Como se aí – na distância dos demais – residisse a fórmula da felicidade. O que é, perceba, quase um desejo de morte. Uma desistência de viver que permitisse ao sujeito deixar de sentir os trancos e desafios que a vida impõe.

Eis o ponto que quero fazer: sempre haverá gente para você lidar. Seja o seu vizinho. O encanador. O caseiro. Sua faxineira. A pessoa que divide a casa e a vida com você. Seus pais. Seus irmãos. É inútil imaginar que essa faina de lidar com os outros tem alguma chance de acabar. Ela pode diminuir. Você pode ter relações mais superficiais, que permitam à sua vida não ficar tão alavancada no relacionamento com os outros. Você pode trabalhar em funções em que o resultado dependa mais de você, individualmente, do que do trabalho dos outros. Você pode ter posições mais técnicas e menos gerenciais ou comerciais. Você pode se blindar um pouco, ficar menos exposto. Mas não adianta parar de trabalhar, nem aposentar ano que vem, nem fugir para um sopé de montanha na Patagônia, nem renunciar à vida social: o problema de lidar com os outros é inescapável. Então o melhor caminho é mesmo aprender a lidar com isso. E a lidar com você mesmo – suas reações, seus percalços – em meio a isso. Até porque, no limite, haverá sempre uma outra pessoa para você gerenciar – esse cara que mora dentro de você. E embora ele sejam vários, e isso já seja por si só trabalho para uma vida inteira, não faz sentido ter só a si mesmo para administrar. O inferno são os outros – é verdade. Mas o céu também está com eles.

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1 Comentários.

  1. Certa vez ouvi de uma colega de trabalho que queria se dedicar a área técnica na empresa porque não queria lidar com gente. A única coisa q respondi foi exatamente o que vc falou no texto, que isso é inevitável, por mais técnico que seja, ela teria que lidar com alguém e o melhor que ela podia fazer era tentar gostar… de gente! Coincidência ou não, ela tá sozinha e quase não tem amigos dentro ou fora da empresa.
    Não estou julgando, mas eu continuo preferindo as pessoas, gosto delas, dos contatos, da troca de experiências… É fácil? Claro que não, mas é muito mais enriquecedor e feliz!!

    Abraços,

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