Para mudar, você precisa saber aonde quer ir

Antes de levantar aquele sofá que lhe incomoda hoje, é fundamental ter convicção de qual é o novo lugar onde você quer colocá-lo

Acabo de receber por email a seguinte mensagem:

“Sou fã do seu blog desde o Manual do Executivo Ingênuo, sigo você no Facebook e frequentemente compartilho seus artigos com meus amigos. Sempre quis escrever e agora acho que chegou a minha vez.

“Tenho 30 anos, minha vida pessoal é muito boa, mas minha carreira não decolou e ando muito frustrado com isso. Sou formado em boas escolas, tenho pós graduação, falo três línguas e tenho no CV estágios fora do país e experiências em empresas líderes em seus segmentos.

“Na primeira empresa, fiquei por quase cinco anos. Passei por um programa de trainee e parei numa posição de consultor, um passo antes de virar gerente. Os trabalhos que fiz eram reconhecidos. Segundo o que dizem de mim no LinkedIn, sou um cara “comprometido, determinado, ético, voltado para resultados, que resolve problemas e conflitos da melhor maneira possível”. Ainda assim, minha carreira empacou nessa empresa. Tentei mudar de área, mas não consegui. Como não via perspectivas de promoção, resolvi mudar.

“Procurei bastante, procurava oportunidades por meio do meu networking mas quase nunca era chamado para entrevistas. Então, surgiu uma indicação de um amigo para uma posição de analista em um banco e resolvi testar a possibilidade. Não era um dream job, entrei nessa achando que estava dando um passo para trás, mas seria algo diferente, ganhando mais ou menos a mesma coisa, numa grande empresa e com boas perspectivas de crescimento.

“Estou há cerca de um ano e meio nesse trabalho. Fui bem no início, fui até convidado para trabalhar em outra área. Tive certo reconhecimento do banco sobre meu desempenho mas o trabalho começou a desandar. Já não dou conta do que tenho que fazer, não exatamente pela quantidade de trabalho, mas mais pelo interesse e pela identificação com aquilo que resulta do meu trabalho. Frequentemente, tenho arranjado conflitos com colegas de trabalho e não consigo mais organizar as coisas. Quanto mais o tempo passa, mais frustrado fico, maior parece que o círculo vicioso se fecha à minha volta. Acho que já era um sentimento que procurava combater fazia um tempo, mas agora algo desandou mesmo dentro de mim.

“Durmo pensando nos problemas que não consigo resolver, acordo sem vontade de ir ao trabalho, passo o dia que nem bolinha em fliperama, sem foco, batendo de um lado para o outro, com a produtividade lá embaixo. Estou perdendo prazos, com medo de tomar decisões. Se observasse meu desempenho e postura de fora (como se fosse meu chefe), talvez já tivesse me demitido. Para ser sincero, penso todo dia em pedir demissão.

“Essa frustração é tão grande que às vezes penso que não conseguiria ter filhos porque não teria nada para ensinar a eles e porque não seria motivo de orgulho… Já pensou um pai sendo tão frustrado profissionalmente que não consegue dar exemplo algum a seus filhos?

“Meu pai já me chamou para ajudá-lo a estruturar melhor a pequena consultoria que ele tem. Também tenho um amigo que tem uma empresa de treinamento de competências e coaching, que acha que levo jeito para a coisa e me chamou para fazer uma preparação para quem sabe um dia ser um Instrutor. Não sei quanto se pode ganhar com isso, mas a possibilidade de ajudar as pessoas a desenvolver habilidades diversas de liderança e comunicação me parece uma oportunidade de deixar um legado bem legal no mundo…

“Minha família é de classe média e não temos grandes dívidas. Não tenho filhos e não é algo que prevejo para os próximos três ou quatro anos. Minha esposa trabalha e a renda dela seria quase suficiente para bancar as despesas de casa. Não cogito ficar parado, mas se eu precisasse, tenho economias para viver por 18 meses.

“Já passou por algo semelhante? Vale a pena um corte radical nessa situação mesmo sem ter certeza do que fazer no próximo capítulo?”

Meu caro companheiro de ingenuidade,

Abaixo, meus dez centavos de contribuição. (Nunca é mais do que isso o que tenho no bolso.) E, como sempre, conclamo os demais membros da nossa congregação ingênua para que mandem de lá suas dicas também.

Está claro que você é um profissional bem formado. Você foca seu relato na experiência em duas empresas. Comecemos pela atual. Parece óbvio que você não gosta da substância do seu trabalho. Você não curte o que faz, o seu dia a dia. Aí não tem jeito: o trabalho perde o propósito. A carreira fica sem sentido, sem significado. Você não tem paixão nenhuma pelo trabalho no banco. É um casamento sem sexo, sem beijo na boca, sem olho no olho, sem pele, sem química. É apenas lógico que esteja difícil de sair da cama todo dia de manhã. Carreira é lugar para viver um grande amor – pelo trabalho, pelos projetos, pelas conquistas. (E até mesmo pelos tombos.) Não é lugar para viver de aparências nem para se trocar por meia dúzia de caraminguás. (O dinheiro, de um jeito ou de outro, sempre vem.) Então me parece que você tem mesmo que achar outra coisa para fazer com a maior urgência. Ou dentro do banco – se lhe fosse dado escolher livremente, haveria alguma coisa no banco que lhe encantaria fazer? Ou então noutro lugar.

Com relação a seu primeiro emprego, fiquei com dúvida em relação a por que você estagnou como consultor e não virou gerente. Será que é só uma percepção equivocada sua? Quero dizer: às vezes o carro está andando bem mas a gente está tão ansioso que acha que ele não sai do lugar. Aí o problema não está no carro mas em nós, no modo como olhamos para ele. Mas pode ser também que haja algum outro motivo para todo mundo falar tão bem de você – no LinkedIn, pelo menos – e você de fato não ter tido, eventualmente, a mesma velocidade de promoção que outros colegas do seu curso de trainee. Vale analisar bem isso. Conversar, talvez, com seus ex-chefes. Eles certamente poderão, hoje, com distanciamento, e se você lhes pedir e lhes deixar à vontade para tanto, lhe dar um feedback preciso sobre a imagem que você deixou naquele seu primeiro emprego. Isso pode valer ouro. Uma espécie de entrevista de demissão tardia.

Com relação às condições de mudança, acho sempre que a mudança se impõe. Ela vem de dentro. E não de fora, a partir das condições econômicas mais ou menos confortáveis que estão dadas. E eu acho que a mudança é algo sempre bom. E trata-se de uma decisão fácil, óbvia mesmo, quando se está sofrendo, como é o seu caso no momento. A mudança, no entanto, não é apenas sair de determinado lugar ou de determinada situação. Tão ou mais importante para a mudança é você saber com clareza e com certeza para onde você quer ir. E me aparece que esse é um exercício que você ainda não fez e que é fundamental fazer: o que lhe faz feliz? O que você faria mesmo que não lhe pagassem nada por isso? Qual é a sua paixão? O que você acha que faz melhor na vida? O que as outras pessoas acham que você nasceu para fazer? É aí que mora a resposta para você. E essa resposta está muito mais perto do coração do que do cérebro.

Abraço forte e boa sorte em tudo!

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16 Comentários.

  1. Ótimos pontos! Acho que encontrar significado no nosso trabalho é fundamental (para que ele não vire o objeto de tortura – trabalho vem de tripaliu – antigo instrumento de tortura). Amar o que se faz dá uma motivação que não tem preço – acho que grana é um motivador a curto prazo, que a gente só valoriza quando falta…rsrs…e é por isso que vale a pena analisar os prós e contras antes de qq mudança. ´Se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho leva a lugar nenhum´, como dizia o gato para a Alice no país das maravilhas.

  2. É isso ai que o adriano colocou, é evidente que vc precisar mudar, mas antes é necessário saber o caminho que vc quer seguir.

    Boa sorte.

  3. Acredito que mais importante do que saber o caminho que quer seguir… é identificar aquele que com certeza não deseja trilhar…
    Saber o que não quer para sua vida, ja é um grande passo tentar identificar coisas que você ama e encontrar razões para seguir em frente.
    Pelo que contou, você é muito dedicado mas talvez muito exigente consigo mesmo.
    Recomendo que você leia o livro “quem mexeu no meu queijo”, é rápido mas pode ajuda-lo a tomar coragem.

    Abraço

  4. Tudo o que li agora neste post bateu com a forma como estou me sentindo. Estou passando, desde o final do ano passado pelo mesmo sentimento de insatisfação, falta de brilho no olhar, de vontade…ainda não deixei que isso afetasse a qualidade do meu trabalho, mas a dedicação de fato diminuiu..por isso, pensei e pesei tudo, hoje pedi demissão. Decisão difícil? Sim…depois de 05 anos de empresa…mas hoje me sinto segura porque quero o melhor pra mim. Quanto ao que vou fazer da minha vida depois deste passo, ainda estou pensando… autoconhecimento, assim como o autor da pergunta, é disso que eu preciso! Quanto ao desejo de mudança, de fato ele acontece primeiro dentro de você. Obrigada pelo post, pelo compartilhar de sentimentos e pelas orientações do dono do blog.

  5. Tudo o que está presente na minha realidade atual. Vivo esses sentimentos desde meados de 2010.
    Tenho 20 anos, terminei uma graduação, estou fazendo uma pós, mas não vejo sentido em nada.
    Perdi a vontade de fazer qualquer coisa; sair, namorar, trabalhar, mais nada me satisfaz.
    Hoje, vou ao psicologo todas as sextas feiras, pois descobri que a minha percepção da realidade causa alterações no meu emocional, fazendo-me sofrer.
    Foi muito bom ler este post, pois descobri que existem várias pessoas na mesma situação, e que ao mesmo tempo não estão sozinhas. Saber que podemos ajudar uns aos outros pela internet.
    Obrigada por compartilhar esses sentimentos.

  6. Ando através da Internet a procurar sem orientação ate que descobri este post, e
    é precisamente o que eu precisava neste
    momento, muito obrigado

  7. E como se faz isto: “E me aparece que esse é um exercício que você ainda não fez e que é fundamental fazer: o que lhe faz feliz” ?

    • Oi, Carla.
      Obrigado por comentar.
      Isso passa por se conhecer. E por se aceitar. Acho que autoconhecimento já é um exercício duro. Mas a coisa mais difícil vem a seguir: ouvir o que a gente mesmo está se dizendo. Ouvir de verdade. Levar a sério. Seguir essas instruções. Desafio para a vida toda, exercício diário de tentativa e erro, de experimentar e investir numas coisas e desistir de outras. (Nem sempre fazendo a escolha certa. Às vezes guardando o joio e jogando o trigo fora.) Bem vinda ao clube! Beijo.

  8. É muito bom saber que não estou sozinha.
    Trabalhei durante 8 anos como gerente de eventos,simplesmente amava o meu trabalho,fazia com gosto e nem via o dia passar mas recentemente o buffet foi vendido e eu tive que sair. Estou há 3 meses trabalhando como supervisora adm de uma empresa e eu simplesmente odeio!!! É horrível acordar todos os dias e saber q tenho que ir p aquele lugar. Hoje domingo já fico pensando no que me espera lá amanhã e a mha vontade é de não ir trabalhar. Assinei um site para conseguir encontrar uma nova oportunidade distribui vários currículos mas até agora nada. Sinceramente estou desesperada para mudar de emprego.
    Espero que eu consiga e em breve pq sinto que vou explodir a qualquer hora.

  9. Eu estou na mesma situação…perdida…sem ânimo…sem motivação…to indo até em psiquiatra…to em depressão…to em uma empresa que não me faz feliz. Me ajudem.

  10. “Não é lugar para viver de aparências nem para se trocar por meia dúzia de caraminguás. (O dinheiro, de um jeito ou de outro, sempre vem.) ”

    Muito boa observação.

  11. Impressionante! Cada frase que eu lia pensei que era um relato meu que eu não me recordava de ter escrito… Um pouco diferente pois as minhas condições financeiras não são tão boas como as do colega, porém no geral passo pela mesma coisa. Fui empregado de uma grande empresa de Telecom privada, era ótimo no que eu fazia, cresci lá dentro, vagarosamente, mas cresci. Passei num concurso público e dei um xeque mate na empresa esperando o famoso $reconhecimento$, este obviamente não veio. Decidi tentar algo novo para ganhar mais ou menos a mesma coisa, mas com o pensamento na nova oportunidade. Saldo da minha aposta: infelicidade total, desânimo, desprezo pelo local e modo de trabalho ou falta dele, depressão não sei dizer mas vontade zero todo santo dia. Para ajudar minha experiência específica demais da empresa anterior cercou minhas oportunidades de busca e estou me sentindo num verdadeiro mato sem cachorro.. desesperado, preocupado e infeliz.

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