Ficar quietinho no ninho ou arriscar um voo diferente?

Hey, high flyer, o máximo que vai acontecer se nada sair conforme o planejado é você ter vivido, visto, aprendido, experimentado, refletido, se expandido, se conhecido mais. Bon voyage!

Mantendo uma tradição que começou quando este blog se chamava Manual do Executivo Ingênuo e ficava hospedado no Portal Exame – que hoje se chama apenas Exame.com -, recebi essa mensagem de um leitor ingênuo esses dias:

“Estou num impasse. Tenho 30 e poucos anos, terminei o doutorado há pouco tempo, estou casado há quase dez anos. Amo minha mulher mas desde o fim do doutorado a gente não se entende mais do mesmo jeito. Acho que o relacionamento chegou num impasse. Eu quero fazer de tudo pra salvá-lo. Sinto que ela não está tão a fim. Acho que às vezes ela cogita cair fora.

“Profissionalmente, sou um pesquisador. E trabalho no setor privado como consultor. Ganho bem. Me acostumei ao ritmo do trabalho mas ao mesmo tempo tenho me dado o espaço pra buscar outros prazeres na vida, dedicar tempo para outras coisas, como relações pessoais, cursos por puro diletantismo, uma tarde de folga de vez em quando para tomar café e pensar na vida. Trabalho muito mas a carga de trabalho é variável. É uma vida que eu continuaria vivendo sem problemas. Meu trabalho é interessante, mesmo que não seja perfeito.

“Acabo de receber uma proposta. O emprego dos sonhos na minha área. Nos Estados Unidos. (Já morei fora antes, na Europa). Para trabalhar com um cara que admiro ainda mais do que meu chefe atual. Um trabalho em que vou tomar decisões, coordenar equipes maiores. A carga de trabalho vai aumentar de novo. Vou sair da minha recém conquistada zona de conforto. O que eu encararia sem problemas, tenho gosto por aventuras.

“Mas, se eu for, o casamento acaba na certa. E pode ser que acabe de qualquer maneira. E por mais que pareça que meu mundo tá acabando junto, honestamente, e com o perdão da repetição, não seria o fim do mundo.

“Mas será que eu agüento tanta mudança, passar por um divórcio num lugar em que não tenho amigos, nem família, nem redes de apoio, nem conheço o trabalho, nem os códigos cotidianos? (Como se faz amizade lá? Isso muda em todo lugar). Não conheço nem mesmo os códigos da sedução, para o caso de meu casamento acabar e eu precisar reinventar minha vida afetiva. Seria preciso conhecer gente nova e me convencer de que a vida de solteiro vale a pena para compensar o fim de um amor que eu prezo muito.

“Em termos financeiros, a mudança é para ganhar mais ou menos a mesma coisa. Aliás, se eu trucar meu chefe aqui, tenho quase certeza de que consigo aumentar meu salário para ficar. Mas já deu pra sacar que esse não é o fator primordial para mim, né? Pesa mais a carreira promissora por lá. E o fato de que, mesmo se eu voltar ao Brasil em alguns anos, minha empregabilidade aumentaria e o meu potencial salário também. Mas será que vale o sacrifício de uma separação de todos para em enfiar embaixo de neve?”

Mantendo a mesma tradição do Manual do Executivo Ingênuo, divido esse dilema com você, que pode inclusive ajudar o nosso amigo, companheiro de ingenuidade, muito mais do que eu, com seus insights e ponderações. Eis a minha resposta a ele:

Muito obrigado por frequentar o Manual e por entrar em contato.

Como você sabe, por ser leitor do blog, não sou ninguém para opinar sobre a vida de quem quer que seja. Mal dou conta de administrar a minha. Mas, de todo modo, eis o que me parece:

1.       Com dez anos de casado, talvez você esteja diante da hora de decidir ter um filho ou não com a sua mulher. Imagino que não tenham filhos e que ela tenha também mais de 30 anos. (Ou seja: o tal relógio biológico dela provavelmente a está pressionando em relação a essa questão da maternidade, que é uma da forças mais impressionantes em ação na espécie humana.) Há dois momentos em que relacionamentos antigos não vão para a frente: na hora de transformar um noivado em casamento. E na hora de transformar um casal sem filhos numa família. São momentos que testam a relação, põe à prova o casal e dividem águas. É a chamada hora da verdade. São duas situações que muitas vezes deixam mais clara a força – ou a ausência de força – de um relacionamento, de um jeito que o dia a dia mesmo não deixa entrever. Veja se isso não está rolando com vocês. (E não só com você. Mas com ela também.) A hora de escolher com que matriz passar seus genes adiante é um momento crucial da vida da gente.

2.      Profissionalmente, parece que você vive um momento excepcional: faz o que gosta, ganha bem, tem controle da agenda, se instrui sempre que quer. E, sobretudo, trabalha com um chefe que admira. A outra oportunidade coloca tudo isso em risco. É como um investimento: você poderá ganhar em dobro – trabalhar com um chefe ainda mais inspirador, morar fora, aprender mais, ganhar mais, crescer. E que também poderá dar errado. Aí você volta ao estágio inicial. Costumo imaginar que sempre vale ir adiante. O máximo que vai acontecer é não sair conforme o planejado. Mas ainda assim você ganhou porque viveu, viu, aprendeu, experimentou, refletiu, se expandiu, se conheceu mais. O ruim é você ficar se perguntando como teria sido. Eu, de modo geral, prefiro me arrepender pelo que fiz do que pelo que não fiz. Mas costumo pensar também que a melhor resposta diante desse tipo de encruzilhada está no coração e nos testículos – e não na cabeça. Pergunte para a sua libido o que fazer. Ela já sabe. Os americanos chamam isso de gut feeling. A gente fica quebrando a cabeça, racionalizando, mas o seu estômago já sabe o que você quer e deve fazer. Fundo em suas entranhas, seu corpo já sabe a resposta.

Good luck, man.

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3 Comentários.

  1. O legal é se projetar a longo prazo (5, 10, 20 anos) e analisar de forma retroativa a tomada de decisão.

    Outra opção é fazer com que sempre esteja com a opção de escolher um caminho diferente na vida. Se você não pode mais escolher, é que se ferrou, aí fica ainda mais feio.

    P.S.: depoimento de alguem que vive em 3 continentes..

  2. História que certamente se enquadra em muitas outras molduras . Vale a reflexão. Ou …just gut feelings!

  3. Sei que muitos aqui não concordam, mas na minha visão: ”Casar e querer crescer profissionalmente é a mesma coisa que acelerar o carro com o freio de mão puxado”.

    Faça o que lhe der vontade amigo, e se ela não seguir junto com vc. É porque ela não lhe amava tanto, e assim vc não perdeu nada.

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