Um livro excruciante

 

O livro de Grillet apresenta o consorte como carrasco, o amante como verdugo, o sexo como sevícia, o coito como estupro e a corte como exercício de terror.

Um Romance Sentimental é o último livro de Alain Robbe-Grillet, considerado o “papa” do Noveau Roman e um “enfant terrible” das letras francesas. O livro foi lançado em 2007 na França, quando o autor contava 85 anos. Grillet morreu no ano seguinte. A história se passa em uma mansão em que vivem Sorel e sua filha, Gigi, de 14 anos – que é também sua pupila e concubina – e onde eles vão formando um harém de escravas sexuais seviciadas barbaramente pelos dois ou a mando deles.

O livro é isso: empalamento, curra, lacerações, mutilação. Do início ao fim. Uma repetição de cenas cruas e cruéis que na primeira metade do livro agridem o leitor e que depois acabam por embotá-lo. O leitor, mareado nas primeiras 100 páginas, chega ao ponto final na página 238 enfarado.

Eis o fato: a sexualidade talvez seja o charco mais traiçoeiro do vasto pântano movediço do comportamento humano. Na ciranda de brutalidade desenhada por Grillet, uma primeira questão central se apresenta: violência dá prazer? A satisfação suprema reside em esganar outra pessoa? Há excessos na narrativa de Grillet que a conduzem muitas vezes para a inverossimilhança. O estupro, o esquartejamento e a morte de um bebê de 18 meses, para citar um exemplo. Diante desses momentos, é sempre bom lembrar que sadismo é o gosto pelo sofrimento e pela humilhação do outro. E que sadismo existe. Trata-se de uma das características fundantes da humanidade. Está por aí, em todo lugar, em maior ou menor medida: nas empresas, nas escolas, nos estádios, nos almoços em família. Ou seja: nada do que está escrito em Um Romance Sentimental, mesmo descontando os paroxismos, pode nos soar estranho. Isso é perturbador.

A tarja na capa do livro, “Lacrado por conteúdo impróprio”, como que promete uma leitura lúbrica. Ocorre que não se trata de um livro sobre sexo explícito, mas de um livro sobre ultraviolência. Não há nada ali de sensual ou de libidinoso. Ao contrário: o livro aboleta os sentidos, dizima o apetite e o bem estar. Não é, portanto, apenas o incesto e a pedofilia que incomodam – é o martírio constante atrelado a essas situações. É a absoluta ausência de respeito, compaixão, empatia de um pelo outro. A obra de Grillet não tem a ver com o gozo, mas com a dor. É a morte da libido para quem não enxerga a dor e o gozo como duas faces de uma mesma moeda, mas como as extremidades opostas de uma longa rodovia.

A moral sexual do livro é cristã, machocêntrica. Os elementos estão todos lá. Há culpa e há punição. Há putas e há santas. Há uma idéia de indecência merecedora de penitência. Há expiação da indignidade por meio do suplício do corpo, do sacrifício da carne. Há subserviência feminina – e, ao mesmo tempo, a visão das mulheres como tentação, como atentado demoníaco aos homens. É a velha tese patriarcal de que as mulheres são as reais culpadas pelo sofrimento que lhes é imposto. De um lado, homens e falos são sempre sujeitos, nunca objetos, dos massacres carnais que perfazem o livro. De outro, as mulheres cumprem à risca o papel do supliciado que reproduz o suplício, que passa o terror adiante: aquelas que sobrevivem à chacina (todas se submetem docilmente a ela) têm grande prazer em chacinar outras mulheres.

A experiência estética em Um Romance Sentimental é forte e não é agradável. Trata-se de uma versão com mais qualidade literária de filmes ultraviolentos como O Albergue ou Viagem Maldita. Ou de uma versão com menos qualidade política de Saló ou os 120 Dias de Sodoma, o tratado cinematográfico de Pasolini sobre o fascismo.

Uma segunda questão central que emerge do livro de Grillet: afinal, o que é o erótico? Talvez seja a revelação prazerosa daquilo que mantemos mais escondido. Talvez seja a liberdade de se permitir viver aquilo que consideramos proibido. A julgar pela narrativa de Grillet, o desejo mais íntimo e secreto que guardamos é a sanha de estropiar o outro. Será que a libido que reprimimos é uma força sanguinolenta? O desejo, uma vez liberto, operaria pela aniquilação do outro?

Enquanto a grande arte esfrega os nossos grilos em nossas caras, é de se perguntar se o livro de Grillet de fato expõe ao leitor as pulsões que ele não gostaria de reconhecer em si – daí o incômodo, daí o escândalo. A alguém aquela sequência de suplícios excitará a contragosto? A alguém aquela narrativa trará uma revelação indigesta sobre a sua própria sexualidade? Será que o velho Grillet teve uma ou outra ereção octogenária ao escrevê-la?

Um Romance Sentimental parece mais uma provocação sardônica de Grillet. Talvez ele tenha escrito tudo isso por diversão, com a intenção juvenil de dar um tranco no leitor. Ainda assim, ao brincar com a fantasia da dominação, do poder absoluto sobre o outro, ele acaba criando uma alegoria interessante da posse de uma pessoa pela outra. O controle sobre a integridade física e mental alheia explica muita coisa na vida real: o marido que queima a esposa com ferro de passar, os hímens e clitóris arrancados a frio pelas sogras na África, as chantagens que as mais distintas mães impõem aos filhos, os pais que abusam sexualmente de suas filhas.

Há também no livro a idéia da submissão, de se entregar integralmente ao outro. Mas pode o sádico sentir prazer quando a dor que inflige agrada ao masoquista? A afronta, quando é desejada, quando é sentida como prazer, deixa de ser afronta? Ou é preciso haver a destruição não-consentida do outro para que o sádico obtenha seu gozo? E se é verdade que os amantes sempre esperam retribuição pelas sensações que geram no outro, como o sádico reagiria ao sofrer as sevícias que impinge?

Grillet rasga a tese de que Eros vive na celebração da alegria, na diversão mútua proporcionada pela brincadeira sexual. O livro apresenta o consorte como carrasco, o amante como verdugo, o sexo como sevícia, o coito como estupro e a corte como exercício de terror.

Um Romance Sentimental suscita uma última questão: pode um autor ser imputado diretamente pelo universo que cria em seu livro?  Deus não pode ser responsabilizado por Auschwitz. (Até porque, cá entre nós, o mais provável é que Ele não exista.) Um autor, ao tecer suas cenas, especialmente as limítrofes, precisaria se posicionar em relação a elas? Se sim, se esperaria de Grillet uma crítica ao fascismo e à barbárie que narra. A ausência da crítica significaria endosso ou simpatia. E de fato não está clara a condenação de Grillet em relação ao que se passa no livro. Se não, o autor estaria liberado para contar uma história sem explicitar a sua opinião sobre ela, em nome de uma sensação meramente estética, como se não houvesse uma questão política embricada em cada escolha criativa.

Por fim: a arte, como simulacro do horror, previne o horror? Ou o banaliza e estimula, o torna corriqueiro e familiar, mais aceitável, travestido de coisa comum? É possível que a crítica mais contundente não esteja em antagonizar a tese estapafúrdia, condenando-a à medida em que é apresentada, mas, ao contrário, desenvolvê-la livremente, ao paroxismo, deixá-la desabrochar em sua plenitude pavorosa, para que cause no leitor todas as sensações extremadas de repulsa e oposição. Esta talvez seja a grande crítica de Grillet.

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